segunda-feira, 27 de julho de 2026

Quando "farmar" saiu dos games: o curioso caso dos Campeonatos de Farmar Aura

Imagem gerada por IA

Nas últimas semanas, um fenômeno curioso passou a chamar a atenção nas redes sociais e até em noticiários televisivos, chegando inclusive ao Fantástico, da TV Globo, neste domingo (26): a realização de "Campeonatos de Farmar Aura", em cidades do interior e capitais brasileiras. 

Segundo os organizadores dos eventos, a proposta reúne jovens para uma disputa baseada em "presença, estilo, carisma e atitude", que divertem, causam polêmica, geram memes e rapidamente viralizam na internet. Mas, depois de observar melhor o fenômeno, fica evidente que a história é maior do que uma simples gíria da internet. Afinal, "farmar aura no mundo real" é algo perturbador ou inocente?

Minha primeira reação, como gamer 40+, foi de estranhamento.

Como alguém que acompanha videogames há décadas, é impossível não associar o verbo farmar ao universo gamer. Em RPGs, MMOs e diversos outros jogos, farmar significa repetir atividades para conseguir experiência, dinheiro, equipamentos ou outros recursos. É um termo técnico que nasceu dentro da cultura dos games e que, durante muitos anos, era praticamente desconhecido fora dela.

Por isso, ver a palavra sendo utilizada para definir uma competição de carisma entre jovens e crianças parece, à primeira vista, uma apropriação no mínimo curiosa, quase como se alguém resolvesse organizar um campeonato de "upar simpatia" ou "buffar autoestima".

Mas, pensando melhor, talvez exista uma leitura mais interessante.

Ao longo dos últimos vinte anos, os videogames deixaram de ser um entretenimento de nicho para se tornarem uma das maiores indústrias culturais do planeta. Com isso, seu vocabulário também atravessou as telas. Hoje é comum ouvir pessoas dizendo que vão "farmar dinheiro", "farmar seguidores", "buffar um personagem", "nerfar uma estratégia" ou "rushar" uma tarefa. Muitas delas sequer jogam os títulos que popularizaram essas expressões.

A língua sempre funcionou assim. As palavras viajam, mudam de significado e ganham novos contextos. O que antes era exclusivo dos jogadores passou a fazer parte da linguagem da internet.

Talvez o aspecto mais curioso nem seja o uso da palavra farmar, mas o conceito de aura.

Nas redes sociais, "ter aura" virou uma forma descontraída de dizer que alguém transmite confiança, estilo, respeito ou presença. Quando juntamos as duas expressões, surge a ideia de "acumular aura", como se carisma pudesse ser conquistado como experiência em um RPG.

É uma metáfora curiosa, mas também revela algo sobre a geração que cresceu conectada. Se antes os jogos gamificavam a fantasia, agora parece que as redes sociais estão gamificando a própria vida. Carisma vira pontuação. Estilo vira ranking. Viralizar parece uma conquista desbloqueada. É como se a lógica dos videogames tivesse extrapolado as telas e passado a organizar parte das relações sociais.

Confesso que continuo achando a expressão um pouco estranha. Existe um lado gamer veterano que ainda enxerga "farmar" como uma atividade ligada exclusivamente aos videogames.

Ao mesmo tempo, é difícil não reconhecer o que isso representa.

Durante muito tempo, jogadores eram vistos como um grupo de nicho. Hoje, a linguagem criada dentro dos games influencia memes, redes sociais, campanhas publicitárias e eventos presenciais. Se adolescentes organizam um campeonato usando um termo que nasceu em MMORPGs, talvez isso seja uma das maiores demonstrações de que a cultura gamer deixou de ser apenas um hobby para se tornar parte da cultura popular.

A reportagem exibida pelo Fantástico mostrou justamente outro lado desse fenômeno: eventos que tiram jovens das telas para interagir presencialmente. Durante anos, os videogames foram acusados de afastar pessoas do convívio social. Agora, uma expressão criada dentro deles ajuda a reunir centenas de adolescentes nas ruas. É uma ironia curiosa: a cultura gamer, antes acusada de isolar pessoas, acaba servindo como ponto de encontro no mundo real.

No fim das contas, o "Campeonato de Farmar Aura" pode parecer uma brincadeira sem muito sentido, e, sinceramente, ainda me faz dar risada. Mas também é um retrato de uma geração cuja linguagem é moldada pela internet e pelos videogames.

Quem diria que passar horas farmando experiência, ouro e equipamentos em RPGs renderia, um dia, um campeonato de carisma nas ruas? Talvez essa seja a maior prova de que os videogames deixaram de ser apenas entretenimento. Eles passaram a influenciar a forma como falamos, pensamos e até nos relacionamos.


Gisele Henriques é administradora com MBA em Administração e Marketing, arte-educadora, pós-graduada em Jornalismo Esportivo e graduanda em Jornalismo e Direito. Gamer desde os anos 1980, farma experiência desde muito antes de "farmar aura" virar tendência.

 
Artigo de Opinião: As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade de seu autor e não refletem necessariamente a linha editorial do Jam Games.